Entre Facas e Segredos
Amar a si ou amar a Deus? Ter razão ou buscar a verdade?
O divertido filme de Rian Johnson, “Knives out" - na tradução brasileira "Entre Facas e Segredos" - trata da misteriosa morte do ricaço Harlan Thrombey. A polícia, juntamente ao detetive particular Benoit Blanc, misteriosamente contratado, tenta desfazer os nós que circundam o trágico evento.
Os personagens logo se apresentam, na medida em que vão sendo interrogados. Ao responderem as perguntas, o véu da família próspera e virtuosa - véu este que todas têm um pouco - rapidamente dá lugar aos conflitos gerados pela ambição e pela inveja, talvez catalisados pela enorme fortuna do falecido. A última a ser questionada é Marta Cabrera, uma imigrante paraguaia contratada como enfermeira particular de Harlan. A jovem é incapaz de passar desapercebida ao mentir, pois sua reação corporal à mentira é incontrolável: ela tem ânsia de vômito só de pensar em dissimular a verdade.
O filme não demora a nos mostrar que, provavelmente, a enfermeira foi a culpada pela morte do magnata, porque ela, displicentemente, deu uma alta dose de morfina ao velho, que, na iminência de sua morte, articula um plano para salvar a pobre jovem, cuja mãe é imigrante ilegal no país e corria o risco de ser deportada caso a filha fosse descoberta. Então, Harlan corta sua própria garganta para simular suicídio enquanto Marta segue o plano elaborado.
Porém, ao cabo, com todo o clima de um filme policial e mesmo com um tom burlesco que nos faz lembrar a fantasia do personagem de Conan Doyle, fica provada a inocência da jovem e a culpa do verdadeiro assassino, Ransom, neto do velho, o qual executou a morte de seu avô após descobrir que estaria fora do testamento, e que toda a herança seria destinada à humilde enfermeira.
Diante de toda a trama, o que me chamou a atenção foi a relação dos personagens com a verdade do caso, sobretudo quando descobrem que a única herdeira era Marta. Surgiu-me a pergunta: "Por que estão buscando a verdade dos fatos?"
O detetive Blanc, estrelado por Daniel Craig, foi contratado anonimamente. Parece, com efeito, estar no caso mais pela curiosidade, especialmente a respeito de quem o contratou, que pelo dinheiro ou prestígio de resolvê-lo. Em certo momento ele fala que a verdade aparece-lhe espontaneamente. Ele indica desejar saber o que aconteceu pelo puro prazer da descoberta.
A família, por outro lado, está satisfeita com a ideia do suicídio, mesmo com pontas soltas e suspeitas que poderiam indicar outra resolução, pois, de qualquer modo, a casa, a próspera editora, enfim, toda a fortuna será divida entre eles. Porém, quando descobrem a real herdeira, todos buscam algum pretexto para fazer mudar o testamento. Só então eles buscam o detetive Blanc, o único que via nas pistas a possibilidade para outra coisa que não o suicídio. Além disso, avançam sobre Marta como fazem urubus sobre suas carniças: tentam dissuadir a jovem de receber a herança ou conseguir algum favor da nova futura ricaça. A família Thrombey se interessa apenas por ter razão, por conseguir as benesses da verdade, o que, de fato, distancia-nos dela. A cobiça nos distancia da verdade, pois faz dela apenas meio para o que se cobiça.
Marta, sob outra perspectiva, é inocente, mas foge da verdade, porque acredita ser a culpada e, estimulada por Harlan e, depois, por Ransom, lança mão de seus esforços para livrar a si e sua mãe dos infortúnios da lei. Mas mal sabe ela que não há desgraça maior que se eximir da verdade.
Falo isso não afetado por um doentio masoquismo. Não desejo dizer que toda verdade e, com isso, toda justiça é e tem que ser dolorosa. Nem sempre a verdade é acompanhada de algum benefício, mas ela sempre liberta, sempre é boa. Já nos dizia Platão, em seu diálogo Górgias, que o pior dos males é ter algum vício na alma e não ser dele liberto, de modo que cometer uma injustiça e escapar do justo reparo é o pior dos destinos. Infelizmente, o "conserto" para nossos erros, sob a égide das instituições humanas, é geralmente dolorido, amargo, punitivo. Entretanto, aquele oferecido por Cristo é sumamente amoroso e só pode ser recebido por aqueles abertos para a Verdade: "Respondeu Jesus: 'Eu sou o caminho, a verdade e a vida'" (Jo, 14, 6) - mas veja: embora a redenção seja gratuita e amorosamente concedida, isso não significa que não possa haver efeitos desagradáveis; o mundo nem sempre é justo, mas ele não é nosso fim.
Por isso, estar aberto para tal verdade requer uma atitude de espírito altiva e piedosa. No texto sobre o heroísmo e Sócrates já falei disso. Agora, trato sob uma perspectiva diferente, mas não excludente.
Em 1 Timóteo 6, 1, Paulo diz que os servos devem honrar seus senhores, inclusive aos senhores cristãos, de quem os servos são irmãos. Entenda que isso não é assentimento à escravidão, mas a exortação para um certo estado de espírito ante a vida. As injustiças não devem gerar revolta, mas piedade. Ao cristão cabe o amor e não o ódio, mesmo em situações odientas. Não foi esse o testemunho do Cristo ao pedir por misericórdia aos seus detratores?
Cristo Crucificado (1632) - Diego Velázquez
O capítulo segue dizendo que há quem nutra um desejo doentio por disputas e controvérsias (3-4). Outros desejam a riqueza e acabam se perdendo, pois o "amor à riqueza é a raiz de todos os males" (10). Esses dois pontos são interessantes, porquanto Paulo não demoniza nem a especulação, nem o dinheiro em si, mas a relação que nós temos com ambos.
Voltando ao filme, em certo momento o detetive Blanc, falando com a anciã da família (creio ser a mãe de Harlen, não lembro agora), diz que a verdade não causa medo ou qualquer coisa do tipo, mas sim a relação que estabelecemos com ela. Então, pergunto: vendo que não fora suicídio, qual o interesse da família em desvendar o crime? Exclusivamente provar a ligação de Marta e torná-la incapaz de receber a herança. Ou seja, a cobiça os fizeram ignorar o valor da verdade; só desejavam estar certos pelo amor ao dinheiro, a filargyria, como dizia o apóstolo Paulo.
Querer ter razão é profundamente diferente de desejar a verdade. Aquele tem origem na mesquinha intenção de satisfação pessoal, em preencher seu próprio eu; este é fruto da disposição na qual colocamos nosso espírito, piedosa e pacientemente aberto para a realidade. O mero debate por si mesmo, só serve para inflar o ego do vencedor. A coragem e o amor pela verdade são diametralmente opostos à oca ambição de estar certo.
O desejo pela glória, bem como pela riqueza, são apenas impulsos de alguém cujo único horizonte é a finitude de si mesmo. A condenação de Paulo, como já disse, não é contra a filosofia ou contra o dinheiro em si, mas contra a vaidade e o todo tipo de materialismo. Quando perdemos a perspectiva da eternidade, tudo é mera efemeridade e, portanto, nada pode ser efetivamente bom, justo, verdadeiro - justiça implica verdade e vice-versa. Escolher ter razão ao invés da vida na e pela verdade é resultado de um horizonte existencial onde o devir tudo dissolve, só restando o mero agora do eu. E só há cura quando nos deparamos com o gratuito amor, quando nos damos conta do caminho, da verdade e da vida. A verdadeira alegria, ou a verdadeira riqueza, como diria o apóstolo Paulo, é a esperança naquilo, ou melhor, n'Aquele que está para além da contingência do nosso mundo.
Só essa esperança nos faz abraçar a Verdade independentemente de suas consequências, se boas ou perversas. Só ela nos torna consciente de nossa própria insuficiência e, por conseguinte, da falibilidade humana, de modo a nos prevenir das estrondosas loucuras comum àqueles que se julgam aptos para assumirem o papel de deuses. Como disse acima, Platão estava certo porque não há miséria maior que uma vida carente da Verdade, do Bem, do Justo.
No fim, o amor a Deus, a piedade, a humildade são, além de princípios bíblicos, princípios epistemológicos, pois sem Deus o homem fica emsimesmado; emsimesmado, ele não se apieda de nada, é arrogante e, portanto, incapaz de reconhecer sua própria ignorância; e este é o passo inicial e fundamental para todo aprendizado.


